O cinema dos antigos países socialistas é amplamente desconhecido em Ocidente. E o cinema fantástico e de terror, ainda mais. À sobrerrepresentação do cinema norte-americano em geral, e o de género em particular; há que acrescentar a escassa produção de histórias fantásticas ou macabras no outro lado da cortina de ferro.
A exceção são os filmes de ficção científica, de modo destacado, aqueles relativos à exploração espacial. Também as histórias sobrenaturais do folclore local de países como a China, o Vietname ou Laos. Mas se pensarmos na importante produção cinematográfica da República Democrática de Alemanha, não encontraremos um só filme que se baseie em elementos sinistros. Os da União Soviética contam-se também com os dedos da mão.

São Checoslováquia, Hungria e especialmente Jugoslávia, quem brindam alguma oferta neste campo. Alguns destes filmes são autênticas jóias que mereceriam uma maior atenção. Esta é uma breve lista de recomendações entre aquelas que achei especialmente resenháveis. Há outras as que infelizmente não tive acesso, pelo que não seria descartável uma posterior ampliação com produções como o primeiro filme da República Popular do Kampuchea, កូនអើយ ម្តាយអាប; algo assim como A minha mãe é um espírito maligno. Com esse nome, só pode ser bom.
Spalovač mrtvol (Forno Crematório; Checoslováquia, 1969)
Juarj Herz é, junto de Jan Švankmajer, um dos poucos realizadores checoslovacos que explorou o terror na altura. Neste filme, primeira toma de contacto do autor com o género; acompanhamos Karel Kopfrkingl, patriarca duma tétrica família da Boémia de entre-guerras e responsável duma funerária. Karel sente uma especial fascinação pela morte e pelos elementos mais macabros do budismo. Em particular, o seu trabalho no crematório e a leitura do Livro dos Mortos do Tibete, faz com que desenvolva uma curiosa filosofia sobre o final da vida como libertação da alma. Filosofia que o vai tornar tanto num perfeito candidato para maiores responsabilidades no advento do nazismo, como numa aberta ameaça para a sua própria família.
Rodada em preto-e-branco, devedora do expressionismo e repleta de referências oníricas; esta joia do suspense não é apenas uma das principais exponentes da “nova onda”, como é considerada um dos melhores filmes checoslovacos de sempre. Maravilha.
Давитељ против давитеља (Estrangulador contra estrangulador; Jugoslávia, 1984)
Para que uma cidade seja uma metrópole precisa um conjunto de coisas. Uma fundamental: um serial killer como Deus manda. E aqui é que vem Pera Mitić (Taško Načić) para fazer de Belgrado uma cidade importante. Este modesto vendedor de cravos, que mora com uma mãe dominante e abusiva, decide assassinar aquelas moças que rechaçam as sua flores. O incompetente inspetor Ognjen Strahinjić (Nikola Simić) intenta caçar o assassino através do autor punk Spiridon Kopicl (Srđan Šaper) quem, obsessivo com as estrangulações, compõe uma canção inspirada nelas.
Este divertidíssimo filme de Slobodan Šijan é uma aberta homenagem em chave de comédia ao Hitchcock de Psycho. Taško Načić está genial no seu papel de Norman Bates dos Balcãs. No seu percorrido alterna momentos hilariantes com outros genuinamente aterradores. Altamente recomendável.
Već viđeno (Deja Vu; Jugoslávia, 1987)
Outra produção jugoslava, mas esta tem um tom significativamente diferente à anterior. Estamos no outono da federação, a escassos anos de que estoure em mil pedaços. Assim, o filme de Goran Marković é um retrato não precisamente otimista do país. Aqui não há espaço já para a comédia, e é assim que nos adentramos no terreno do terror psicológico.
Mihailo (Mustafa Nadarević), um veterano pianista recluso num manicómio, é requerido para substituir um músico num importante concerto. A sua interpretação traz-lhe lembranças duns trágicos acontecimentos que tiveram lugar em 1971 quando, apesar do seu talento musical, Mihailo era um modesto funcionário num centro escolar. Ignorado pelos seus colegas e levando uma existência anódina, Mihailo acaba por se apaixonar da nova professora de ballet Olgica (Anica Dobra). Olgica é uma jovem arrivista, motivada pelo desejo de abandonar a casa familiar e o seu pai alcoólatra, e por financiar uma operação ocular para o seu irmão mais novo. Para lograr os seus objetivos, Olgica implica toda a escola na organização dum evento que será retransmitido pela televisão e que contará com a presença das autoridades. Mihailo é encarregado da parte musical, mas esta responsabilidade faz-lhe reviver certos traumas da sua infância na após-guerra, quando as novas autoridades do país cometeram uma série de injustiças com a sua família. O facto de que Olgica se aproxime do professor de karaté contribui à desorganização psicológica do pianista.
O drama, a tragédia, o horror.
Вий (Viy; União Soviética, 1968)
Para além do presente filme, o relato de Nikolai Gogol serviu de base a outras duas produções russas (em 2006 e 2014), uma sul-coreana (em 2008) e a jugoslava Sveto Mesto (1990), mais focada nos aspetos eróticos do que nos sinistros. Porém as adaptações mais inspiradas foram a genial e livre de Mario Bava (La Maschera del Demonio) e a fiel e igualmente estupenda de Konstantin Yershov e Georgi Kropachyov. Ambos têm a honra de assinar o primeiro filme de terror da URSS e provavelmente o melhor.
O seminarista Khoma tem uma violenta briga com uma bruxa durante o retorno de férias. Sobrevive o incidente abandonando malferida a mulher. Já no seminário, Khoma é requerido para velar durante três noites o cadáver da filha dum magnate local, sob expresso desejo desta antes de morrer. A jovem, que apareceu brutalmente espancada, não é outra do que a própria bruxa; quem ressuscita cada noite do velório para atormentar o seminarista.
De ar clássico e com grandes doses de humor, esta obra-prima é um divertido filme com momentos absolutamente brilhantes. Destacável Natalya Varley no papel de Pannochka, e memoráveis as cenas da intoxicação alcoólica e a última noite do velório.
Matka Joanna od Aniołów (Madre Joana dos Anjos; Polónia, 1961)
Contraponto sério, sóbrio e austero da história soviética anterior, com a que este filme polaco guarda alguns paralelismos. Está inspirado nos mesmos incidentes que servem de base ao filme de Ken Russell The Devils. A diferença do britânico, o filme polaco não se importa tanto com a sorte do antigo padre; evento que serve mais como backstory.
O padre Józef Suryn (Mieczyslaw Voit) é enviado a um convento no rural da Polónia em qualidade de exorcista, pois as freiras sofrem um caso de possessão demoníaca coletiva. Anteriormente, o padre da congregação fora justiçado por aproximar-se das irmãs da confraria com intenções “desonestas”. No convento, Suryn tem um “duro duelo” (por chamar dalgum modo) com a abadessa Madre Joana (Lucyna Winnicka). O clássico conflito entre a espiritualidade repressiva (muito chata) e os incontornáveis desejos da carne (muito mais divertidos) acontecem no interior do padre; já que a possessão inclina a congregação, mormente a madre superiora, cara a blasfémia e a sensualidade mal dissimulada.
Morgiana (Checoslováquia, 1972)
E repetem Checoslováquia e Juraj Herz nesta adaptação dum relato de Alexander Grin. Nela, a jovem Klara, altamente virtuosa, gentil e atrativa para os homens; recebe a maior parte dos bens do seu defunto pai. Assim, sentimo-nos tentados a simpatizar com a sua irmã Viktoria, maltratada na herdança, ignorada pelos homens e sempre na sombra de Klara. Através dos olhos da sua gata Morgiana, assistimos à transformação dos ciúmes em incontrolada loucura homicida nesta história gótica com breves transgressões surrealistas e de vanguarda.
História que descansa na atuação de Iva Janzurová, quem interpreta as duas irmãs. Sem chegar ao nível do anterior filme resenhado deste autor, Morgiana é um produto curioso e de grande beleza visual.
불가사리 (Pulgasari; Coreia do Norte, 1985)
A história que envolve esta fantasia épica resulta bastante curiosa. Segundo fontes do imperialismo, o sul-coreano Shin Sang-ok fora sequestrado em 1978 por ordem do que seria líder supremo da República Popular Democrática da Coreia, Kim Jong-il. A intenção do sequestro seria servir à produção cinematográfica da república setentrional. Pulgasari seria o sétimo e último contributo de Shin a este singular projeto.
O filme narra uma situação de opressão medieval no país. Com o intuito de evitar rebeliões, o tirano (Yong-hok Pak) confisca os instrumentos de lavoura e qualquer coisa que possa servir de arma a um povo maltratado e faminto. Um ferreiro preso por rebeldia, faz um boneco de arroz para a sua filha. O boneco toma vida quando entra em contacto acidental com o sangue da miúda. Alimenta-se de aço e medra sem mesura. Cedo, virará num monstro gigante que ameaça o poder da aristocracia local.
Fruto do gosto do líder supremo por produções como Gojira, Pulgasari é uma curiosa releitura dum personagem mítico local. Ok, talvez as actuações roçassem o histrionismo. De acordo, os efeitos especiais do estúdio japonês Tōhō hoje resultam excessivamente amadores. Contudo, Pulgasari constitui uma engenhosa alegoria da crise da sociedade feudal, da emergência da burguesia como classe e da necessidade da revolução socialista. Quase nada.













