Terror para intelectuais

The Neon Demon (2016)

Não há demasiados anos, houve uma infeliz moda intelectual consistente em colocar o prefixo pós- diante de qualquer termo, disciplina ou corrente. Toda essa vaga amálgama retórica estava vinculada entre si pela sua matriz filosófica pós-moderna. Pós-modernismo: quando não vale para designar certo revival de vanguarda, determinadas práticas artísticas transgressivas ou alguns discursos desmitificadores; serve para nomear um preguiçoso relativismo espistémico, conservador e charlatão.

The Babadook (2014)

Seja como for, há um mês, o crítico de cinema Steve Rose publicou uma coluna em The Guardian assinalando a emergência dum novo sub-género que propõe baptizar como “pós-terror”. A terminologia não é demasiado concisa, já que este sub-género não aparece definido por uma série de características próprias dentro do terror, como em contraposição à rigidez convencional do género:
«Considerando que o horror é o lugar onde exploramos nossos medos mortais e sociais, o género é, na verdade, um dos espaços mais seguros do cinema. Mais do que qualquer outro género, os filmes de terror são regidos por regras e códigos: os vampiros não têm reflexo; a “menina final” prevalecerá; as advertências do dono da gasolineira / o nativo-americano místico / mulher idosa sinistra, não serão atendidas; o mal será finalmente derrotado, ou pelo menos explicado, mas não de uma maneira que encerre a possibilidade de uma sequela».
Neste senso, insiste que as regras e os códigos do género são como lanternas com a que nos adentramos no desconhecido. Mas no final, estas fazem do desconhecido algo previsível.
«Não é de admirar que alguns cineastas estejam começando a questionar o que acontece quando desligas a lanterna. O que acontece quando vais além das convenções de ferro fundido e avanças na escuridão? Podes achar algo ainda mais assustador. Podes encontrar algo que não é assustador. O que poderia surgir aqui é um novo sub-género. Vamos chamá-lo de “pós-horror”».
Não, Steve Rose; não vamos chamar nada.

The Witch (2015)

A coluna foi rapidamente contestada em revisões críticas que subscrevo de forma global. E, contudo, gostaria de desenvolver alguns dos problemas da posição de Rose. Em primeiro lugar, o crítico reduz o género de terror, ignora a sua diversidade através do tempo e das sociedades, a sua disparidade de recursos. Em definitiva, realiza uma caricatura; e uma caricatura mais próxima do sub-género slasher: advertência ignorada, final girl, vitória sobre o mal provisória, final aberto a sequência ou o recurso a sustos súbitos (jump scares). Cumpre assinalar que o slasher já viveu tempos melhores como tendência hegemónica no mercado da década de 1980. Desde a década de 1990, experimenta um declive evidente por saturação e, na actualidade, para além de intentos revivalistas mais ou menos afortunados, sobrevive a base de remakes, sequências ou obras francamente menores. O início do presente século trouxe a emergência de outros sub-géneros mais em consonância com o mundo posterior ao 11 de Setembro: found fotage, torture porn, a revitalização do universo zumbi ou a adopção do terror sobrenatural asiático. Portanto, a estereotipação do género só tem a função aqui de peneira entre obras legítimas ou sérias, e produtos de baixa cultura destinados ao grande público.

Get Out (2017)

Para além disso, haveria que considerar a intenção manifesta da obra na hora de categoriza-la. Será de terror aquele filme que pretenda aterrorizar, angustiar ou estarrecer. Ainda assumindo que os géneros não são categorias estancas, é discutível que estes sejam totalmente convencionais. Podemos entender esta mistura como um contínuo entre géneros e observar se é mais ou menos terror em relação a outros elementos genéricos; cómicos, dramáticos ou de outro tipo. Isto, naturalmente, dá em situações problemáticas. É Låt den rätte komma in drama ou terror? Poderia ser ambos. É Braindead comédia ou terror? Não está claro. The Woman; terror, comédia ou drama? Difícil. Ora What We do in the Shadows é comédia, por mais que apareçam vampiros. The Night of the Hunter contém elementos dramáticos, mas é fundamentalmente uma magnífica obra de terror.
Por que é importante isto? Por que Steve Rose reúne no seu invento filmes dificilmente agrupáveis. Há dois dramas cuja presença no pós-terror é simplesmente o elemento sobrenatural (Personal Shopper e A Ghost Story), há duas boas fitas de terror psicológico (The Witch e The Babadook), um filme experimental argentiniano de desenlace certamente macabro (The Neon Demon)… É complexo ligar tudo dentro dum mesmo sub-género, fora da sugestão de que seja a intenção não-manifesta a que aglutina as peças.
E sim, não é preciso que os filmes de género vaiam além da história macabra que expõem. Mas também não é infrequente que possuam um sub-texto existencial ou sócio-político que interpele a época e a sua gente. A surpresa da crítica com Get Out e a sua alegoria (não demasiado lograda) das relações raciais nos EUA, está totalmente infundada à luz da história. E o filme de Jordan Peele é citado por Rose, ainda sem esclarecer a sua inclusão na nova etiqueta. O mesmo vale para o terror existencial. Serão The Exorcist, Dread ou Martyrs pós-terror? O que subjaz a esta proposta é um desprezo classista pelo espectador médio, um afã de distinção snob que se manifesta no relato das reacções negativas de público que suscitou It Comes at Night.

It Comes at Night (2017)

O filme de Trey Edward Shults é uma decente obra de terror psicológico num contexto pós-apocalíptico, onde duas famílias estão forçadas a conviver isoladas duma vaga epidemia que devastou a sociedade. Compartilhando recursos e espaços, as tensões e as desconfianças não demoram em aparecer, a fazer bom aquilo de Sartre, segundo o qual «o inferno são os outros». Tudo bom, tudo óptimo. O que Rose não pode obviar, é que muito provavelmente o descontento do público não tenha a ver com estar exposto a uma nova concepção do terror. É bastante possível que a plateia ficasse chateada por uma estratégia de marketing totalmente desaconselhável, a qual convidava os espectadores a ver um filme completamente diferente. A começar pelo título: quando tens enfrente um filme chamado Isso vem à noite, esperas que algo venha à noite. Algo terrível, uma ameaça externa figurativa como a que sugere o próprio trailer. E não uma trama cujo terror descansa numa visão pessimista das relações humanas, algo que não é precisamente uma novidade. Não é que a gente seja estúpida: e que foi tratada como tal.
Por isso, no mínimo enquanto não surgir totalmente, dará para suspeitar que isso do pós-terror é só uma escusa intelectual para argumentar que se desfrutou duma obra sinistra no cine-clube. Que se viu um filme de terror -mas dos de pensar!- longe da ralé, das multi-salas e do seu gosto plebeu.

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