Não há demasiados anos, houve uma infeliz moda intelectual consistente em colocar o prefixo pós- diante de qualquer termo, disciplina ou corrente. Toda essa vaga amálgama retórica estava vinculada entre si pela sua matriz filosófica pós-moderna. Pós-modernismo: quando não vale para designar certo revival de vanguarda, determinadas práticas artísticas transgressivas ou alguns discursos desmitificadores; serve para nomear um preguiçoso relativismo espistémico, conservador e charlatão.
Seja como for, há um mês, o crítico de cinema Steve Rose publicou uma coluna em The Guardian assinalando a emergência dum novo sub-género que propõe baptizar como “pós-terror”. A terminologia não é demasiado concisa, já que este sub-género não aparece definido por uma série de características próprias dentro do terror, como em contraposição à rigidez convencional do género:
«Considerando que o horror é o lugar onde exploramos nossos medos mortais e sociais, o género é, na verdade, um dos espaços mais seguros do cinema. Mais do que qualquer outro género, os filmes de terror são regidos por regras e códigos: os vampiros não têm reflexo; a “menina final” prevalecerá; as advertências do dono da gasolineira / o nativo-americano místico / mulher idosa sinistra, não serão atendidas; o mal será finalmente derrotado, ou pelo menos explicado, mas não de uma maneira que encerre a possibilidade de uma sequela».
Neste senso, insiste que as regras e os códigos do género são como lanternas com a que nos adentramos no desconhecido. Mas no final, estas fazem do desconhecido algo previsível.
«Não é de admirar que alguns cineastas estejam começando a questionar o que acontece quando desligas a lanterna. O que acontece quando vais além das convenções de ferro fundido e avanças na escuridão? Podes achar algo ainda mais assustador. Podes encontrar algo que não é assustador. O que poderia surgir aqui é um novo sub-género. Vamos chamá-lo de “pós-horror”».
Não, Steve Rose; não vamos chamar nada.
A coluna foi rapidamente contestada em revisões críticas que subscrevo de forma global. E, contudo, gostaria de desenvolver alguns dos problemas da posição de Rose. Em primeiro lugar, o crítico reduz o género de terror, ignora a sua diversidade através do tempo e das sociedades, a sua disparidade de recursos. Em definitiva, realiza uma caricatura; e uma caricatura mais próxima do sub-género slasher: advertência ignorada, final girl, vitória sobre o mal provisória, final aberto a sequência ou o recurso a sustos súbitos (jump scares). Cumpre assinalar que o slasher já viveu tempos melhores como tendência hegemónica no mercado da década de 1980. Desde a década de 1990, experimenta um declive evidente por saturação e, na actualidade, para além de intentos revivalistas mais ou menos afortunados, sobrevive a base de remakes, sequências ou obras francamente menores. O início do presente século trouxe a emergência de outros sub-géneros mais em consonância com o mundo posterior ao 11 de Setembro: found fotage, torture porn, a revitalização do universo zumbi ou a adopção do terror sobrenatural asiático. Portanto, a estereotipação do género só tem a função aqui de peneira entre obras legítimas ou sérias, e produtos de baixa cultura destinados ao grande público.
Para além disso, haveria que considerar a intenção manifesta da obra na hora de categoriza-la. Será de terror aquele filme que pretenda aterrorizar, angustiar ou estarrecer. Ainda assumindo que os géneros não são categorias estancas, é discutível que estes sejam totalmente convencionais. Podemos entender esta mistura como um contínuo entre géneros e observar se é mais ou menos terror em relação a outros elementos genéricos; cómicos, dramáticos ou de outro tipo. Isto, naturalmente, dá em situações problemáticas. É Låt den rätte komma in drama ou terror? Poderia ser ambos. É Braindead comédia ou terror? Não está claro. The Woman; terror, comédia ou drama? Difícil. Ora What We do in the Shadows é comédia, por mais que apareçam vampiros. The Night of the Hunter contém elementos dramáticos, mas é fundamentalmente uma magnífica obra de terror.
Por que é importante isto? Por que Steve Rose reúne no seu invento filmes dificilmente agrupáveis. Há dois dramas cuja presença no pós-terror é simplesmente o elemento sobrenatural (Personal Shopper e A Ghost Story), há duas boas fitas de terror psicológico (The Witch e The Babadook), um filme experimental argentiniano de desenlace certamente macabro (The Neon Demon)… É complexo ligar tudo dentro dum mesmo sub-género, fora da sugestão de que seja a intenção não-manifesta a que aglutina as peças.
E sim, não é preciso que os filmes de género vaiam além da história macabra que expõem. Mas também não é infrequente que possuam um sub-texto existencial ou sócio-político que interpele a época e a sua gente. A surpresa da crítica com Get Out e a sua alegoria (não demasiado lograda) das relações raciais nos EUA, está totalmente infundada à luz da história. E o filme de Jordan Peele é citado por Rose, ainda sem esclarecer a sua inclusão na nova etiqueta. O mesmo vale para o terror existencial. Serão The Exorcist, Dread ou Martyrs pós-terror? O que subjaz a esta proposta é um desprezo classista pelo espectador médio, um afã de distinção snob que se manifesta no relato das reacções negativas de público que suscitou It Comes at Night.
O filme de Trey Edward Shults é uma decente obra de terror psicológico num contexto pós-apocalíptico, onde duas famílias estão forçadas a conviver isoladas duma vaga epidemia que devastou a sociedade. Compartilhando recursos e espaços, as tensões e as desconfianças não demoram em aparecer, a fazer bom aquilo de Sartre, segundo o qual «o inferno são os outros». Tudo bom, tudo óptimo. O que Rose não pode obviar, é que muito provavelmente o descontento do público não tenha a ver com estar exposto a uma nova concepção do terror. É bastante possível que a plateia ficasse chateada por uma estratégia de marketing totalmente desaconselhável, a qual convidava os espectadores a ver um filme completamente diferente. A começar pelo título: quando tens enfrente um filme chamado Isso vem à noite, esperas que algo venha à noite. Algo terrível, uma ameaça externa figurativa como a que sugere o próprio trailer. E não uma trama cujo terror descansa numa visão pessimista das relações humanas, algo que não é precisamente uma novidade. Não é que a gente seja estúpida: e que foi tratada como tal.
Por isso, no mínimo enquanto não surgir totalmente, dará para suspeitar que isso do pós-terror é só uma escusa intelectual para argumentar que se desfrutou duma obra sinistra no cine-clube. Que se viu um filme de terror -mas dos de pensar!- longe da ralé, das multi-salas e do seu gosto plebeu.




