Filologia para salvar o mundo

15937214_10210228712066428_255866741614537450_oConsiderando que a maioria dos compatriotas galaicos ignoram o parentesco de aquilo que falam com o português ou até a própria existência medieval do Reino da Galiza, o realizador Denis Villeneuve e o guionista Eric Heisserer conquistaram para sempre os nossos corações com este detalhe.

Para além da breve anedota que, com certeza, motivou mais dum visionado nestas terras atlânticas; Arrival é uma boa ficção científica, bastante entretida e de actuações solventes. Não sobra um minuto das suas quase duas horas de duração, que se iniciam de modo abrupto com o drama emocional da linguista Louise Banks (Amy Adams) face a perda da sua filha Hannah. Esta introdução que marca o tom narrativo, revela-nos que não estamos diante desse género de filmes de invasão alienígena sustentados nos efeitos especiais, fogos de artifício e monumentos americanos em chamas.

Dado que no passado já colaborara com o exército norte-americano numa das suas tradicionais operações no estrangeiro, a instituição castrense requer novamente os seus serviços quando uma série de OVNIs acampam em diversos pontos do planeta com uma aparente inclinação ao diálogo. E aqui está o problema: a professora Banks deve fazer equipa com o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) para decifrar o vernáculo extraterrestre e averiguar as intenções alienígenas a respeito do nosso planeta.

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Em segundo plano, o desconcerto social e as tensões geopolíticas que provoca a inesperada visita. Não incomodam nem interferem num dos grandes acertos da história: a notável complexidade da linguagem e cosmovisão dos extraterrestres, uns tranquilos cthulhus tentaculares de escritura fugaz e concepção circular do tempo. Antes do que chatear, a significativa densidade de informação, dosificada de modo inteligente, consegue manter o interesse na trama.

Porém o maior acerto de Arrival é, com certeza, um guião que consegue encaixar de maneira original as duas peças que se brindam no relato: a tragédia íntima da protagonista e o espectacular jogo de diplomacia intergaláctica. Aplausos em pé e qualificação elevada para este filme que leva a assinatura de Denis Villeneuve, quem assumiu para este ano a missão suicida de oferecer uma continuação digna a nada menos que Blade Runner.

  • O melhor: um guião redondo no que os seus elementos funcionam como numa engrenagem.
  • O pior: talvez um par de momentos “incríveis”. Mas não fazem mal.

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One thought on “Filologia para salvar o mundo

  1. O anuncio dun Blade Runner 2 case que me cega o resto da crítica. Non é que sexa persoalmente moi entusiasta do filme de Ridley Scott, inda que sí lle recoñezo unha mao-chea de méritos. Pero sen dúbida a todo seguidor do cinema fantástico faille coxegas que alguén se atreva a unha continuación. Que verei de seguro, case máis por Villeneuve que pola curiosidade de saber qué lles pasou a todos aqueles ciber-fuxitivos.
    Por certo, si ésto é unha declaración de intencións do propio Villeneuve de que virou definitivamente os ollos hacia a Ficción Científica (coa que coqueteou sutilmente con anterioridade) pois parece ser que estamos de noraboa. Porque é un cineasta indudablemente interesante. E que xa ten demostrado que sabe pór un gran presuposto ao servizo dunha boa historia e non do posto de palomitas da entrada da sala de estreas.

    Falando sobre Arrival, concordo completamente coa crítica aquí exposta. Grande película. Moi ben encaixados o drama e a película de alieníxenas. Enorme Amy Adams. E teño que decir que adorei eses Cthulhus filosóficos e sentimentais. Toda unha novidade a existencia de seres asertivos neste universo hostil no que parece que vagamos sen facernos as preguntas correctas.

    Tamén penso que a chave da cuestión, a maxia da historia, reside en usar a linguaxe como tour de force para facer avanzar a trama. É precisamente esa linguaxe extraterrestre, de expresión gráfica complexa e semántica emocional, a que pon ao descuberto tódalas vergoñas do ser humano moderno como especie.

    Como nihilista e misántropo convencido que son, cústame concordar con finais esperanzadores en xeral. Pero como cinéfilo practicante unha boa película é unha boa película. Ésta é moi boa!

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